terça-feira, julho 04, 2006

Ao princípio


“Durante o tempo em que os homens vivem sem um poder comum, capaz de manter a todos em respeito, eles se encontram naquela condição chamada guerra; e uma guerra que é de todos os homens contra todos os homens.”
...
“Em tal situação não há lugar para indústria, pois o seu fruto é incerto, e conseqüentemente, não há cultivo da terra, nem navegação, nem uso das mercadorias que podem ser importadas pelo mar; não há construções confortáveis, nem instrumentos para mover e remover as coisas que precisam de grande força; não há conhecimento da face da terra; nem cômputo do tempo; nem artes; nem letras; nem sociedade; e o que é pior do que tudo, há um constante temor e perigo de morte violenta. A vida do homem é solitária, miserável, sórdida, selvagem e curta.”

Muito pouco muda se comparamos estas conhecidas passagens de Thomas Hobbes (Inglaterra, 1588-1679), do capítulo XIII do Leviatã, com o cotidiano de pessoas que vivem em lugares onde não há respeito pela liberdade alheia, como é o meu caso. Vivemos a era dos direitos: humanos, das mulheres, da criança, do adolescente, dos idosos, dos animais, dos presidiários, dos criminosos. Ora, nossos direitos são inatos, não precisam de declarações. Tudo não passa de uma insistente projeção de responsabilidades que não deixa espaço para os deveres. Quando abrimos mão de parte da nossa liberdade para convivermos, assumimos responsabilidades, deveres, contratos. O “poder comum” espalha-se em todas as direções, mas é incapaz de mediar estes contratos, gerando incerteza, violência e temor. Já não creio no Estado, minha opção é exercitar a lei do Evangelho “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Para meu coração de pedra, e para a dureza da vida em sociedade, cabe a versão de Hobbes: “Faz aos outros o que queres que façam a ti.”

4 comentários:

Anônimo disse...

Se cada um tivesse a consciência e exercitasse o seu dever não precisaríamos preocupar com os nossos direitos.

Que cada um desempenhe o seu papel na vida. E teremos dias melhores.
bjs virginia

Gabriel Filártiga disse...

Gostei do "E teremos dias melhores.", com ponto final, ao invés da alternativa "E teremos dias melhores?", com interrogação.

Beijos,
Gabriel.

Anônimo disse...

Essa dureza da vida em sociedade, se estamos conscientes e lúcidos, nos faz evoluir de uma maneira fantástica.Que aprendizagem
gradativa e necessária, que sentimento incrível esse,de mais um degrau transposto, de mais uma batalha ganha contra nós mesmos!
Bjs
Sarita

Gabriel Filártiga disse...

Vocês estão conseguindo me contagiar com todo esse otimismo.

Beijos e até logo,

Gabriel.